A concentração média de espermatozoides caiu 51,6% entre 1973 e 2018 em homens de todos os continentes, e o ritmo da queda dobrou a partir de 2000. O dado vem de uma meta-análise com 223 estudos, retomada em 2026 por uma revisão publicada na revista Antioxidants.
Para casais que tentam engravidar, esse cenário reforça uma recomendação das diretrizes médicas: avaliar o homem e a mulher ao mesmo tempo. No homem, a investigação começa pelo espermograma.
Em resumo
- A concentração de espermatozoides caiu 51,6% e a contagem total caiu 62,3% entre 1973 e 2018.
- A redução anual passou de 1,16% para 2,64% a partir de 2000.
- Os níveis de testosterona caem de 1% a 2% ao ano, sem relação com o envelhecimento.
- Os fatores associados incluem disruptores endócrinos, obesidade, sedentarismo, tabagismo e exposição ao calor.
- No Brasil, a prevalência de infertilidade masculina aumentou entre 1990 e 2021.
- O espermograma avalia volume, concentração, motilidade e morfologia dos espermatozoides, com coleta após 2 a 7 dias de abstinência sexual.
O que os estudos mostram sobre a contagem de espermatozoides
A principal referência sobre o tema é uma meta-análise publicada em 2023 na revista Human Reproduction Update. Os pesquisadores reuniram 223 estudos, com amostras de sêmen coletadas entre 1973 e 2018, e analisaram homens da população geral, sem seleção por fertilidade. A equipe teve participação da Universidade Federal do Paraná.
O trabalho mediu dois indicadores. A concentração indica quantos milhões de espermatozoides existem em cada mililitro de sêmen. A contagem total considera também o volume da amostra. No período analisado, a concentração caiu 51,6% e a contagem total caiu 62,3%.
Foi também o primeiro estudo a registrar a queda em homens da América do Sul e Central, da Ásia e da África. Até então, os dados disponíveis se concentravam na América do Norte, na Europa e na Austrália.
A queda ficou mais rápida depois de 2000
Considerando todo o período, a concentração de espermatozoides caiu em média 1,16% ao ano. Nas amostras coletadas a partir de 2000, a redução chegou a 2,64% ao ano.
Imagem: gráfico de colunas “Redução anual na concentração de espermatozoides” (mesma arte do carrossel). Texto alternativo: Gráfico comparando a redução anual na concentração de espermatozoides: 1,16% ao ano na média desde 1973 e 2,64% ao ano desde 2000. Fonte: Levine et al., Human Reproduction Update, 2023.
A revisão de 2026
Em 2026, pesquisadores da Universidade de Catânia, na Itália, publicaram na revista Antioxidants uma revisão que reúne as evidências sobre o tema. O trabalho confirma a tendência e acrescenta outro indicador: os níveis de testosterona caem de 1% a 2% ao ano, independentemente da idade, segundo estudos conduzidos de forma independente.
Por que a fertilidade masculina está em queda
Os autores da revisão descrevem uma origem multifatorial, em que exposições ambientais e hábitos de vida se somam:
- Disruptores endócrinos: substâncias que interferem no sistema hormonal, como o bisfenol A, presente em alguns plásticos, os ftalatos e os agrotóxicos.
- Obesidade e sedentarismo: o excesso de gordura altera o equilíbrio hormonal e eleva a temperatura na região dos testículos.
- Tabagismo.
- Exposição frequente ao calor: os testículos funcionam a uma temperatura alguns graus abaixo da temperatura corporal.
O que acontece nas células
A produção de espermatozoides depende de dois tipos de célula nos testículos. As células de Sertoli sustentam a formação dos espermatozoides, e as células de Leydig produzem testosterona. A revisão associa a queda nos dois indicadores à perda de função dessas células, com participação do estresse oxidativo, de falhas nas mitocôndrias e da fragmentação do DNA dos espermatozoides.
A diretriz conjunta da Associação Americana de Urologia (AUA) e da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM) acrescenta um ponto relevante: o diagnóstico de infertilidade masculina está associado a maior risco de outros problemas de saúde ao longo da vida. Por isso, o espermograma também funciona como um indicador da saúde geral do homem.
Infertilidade masculina no Brasil
Em 2021, havia cerca de 55,5 milhões de homens com infertilidade no mundo, segundo o Global Burden of Disease, a base de dados de saúde global coordenada pelo Institute for Health Metrics and Evaluation. Entre 1990 e 2021, a taxa de prevalência padronizada por idade cresceu 0,5% ao ano.
No Brasil, uma análise desses dados publicada em 2026 no International Journal of Gynecology & Obstetrics registrou aumento tanto da infertilidade masculina primária quanto da secundária entre 1990 e 2021. Na infertilidade primária, o casal nunca obteve gestação. Na secundária, já houve ao menos uma gestação anterior.
O mesmo estudo projetou a tendência até 2035 nos países do BRICS. Brasil e China foram os únicos em que a infertilidade masculina primária ficou fora da tendência de queda.
Espermograma: como é feito e o que ele avalia
O espermograma é o exame inicial da investigação da fertilidade masculina. Ele analisa uma amostra de sêmen coletada por masturbação, em recipiente estéril, após 2 a 7 dias de abstinência sexual.
O laboratório avalia o volume da amostra, a concentração e o número total de espermatozoides, a motilidade (capacidade de se deslocar), a vitalidade e a morfologia (forma e tamanho).
Valores de referência da OMS
A 6ª edição do manual da Organização Mundial da Saúde, de 2021, estabelece os seguintes limites inferiores de referência:
| Parâmetro | Limite inferior de referência |
| Volume | 1,4 mL |
| Concentração | 16 milhões por mL |
| Número total de espermatozoides | 39 milhões por ejaculado |
| Motilidade total | 42% |
| Motilidade progressiva | 30% |
| Vitalidade | 54% |
| Formas normais (morfologia) | 4% |
Esses valores vêm de homens cujas parceiras engravidaram em até 12 meses de tentativa. Um resultado abaixo da referência indica necessidade de investigação, e por si só não significa impossibilidade de gestação. Um resultado dentro da referência também exige interpretação médica, junto com a avaliação da parceira.
Como os parâmetros variam de uma coleta para outra, um resultado alterado costuma ser confirmado com uma segunda amostra. A fragmentação do DNA dos espermatozoides é avaliada em um exame específico, solicitado conforme o caso.
Quando o casal deve investigar a fertilidade
A recomendação geral é procurar um especialista após 12 meses de tentativas sem gestação, ou após 6 meses quando a mulher tem 35 anos ou mais. A diretriz AUA/ASRM orienta que homem e mulher sejam avaliados ao mesmo tempo, para que a investigação avance nos dois lados desde a primeira consulta.
Alguns históricos justificam avaliação antes desse prazo:
- varicocele, cirurgia testicular ou testículo que demorou a descer na infância;
- tratamento de câncer com quimioterapia ou radioterapia;
- infecções genitais anteriores;
- alterações de ereção ou ejaculação.
Tratamentos para infertilidade masculina
O tratamento depende da causa identificada. Entre as possibilidades estão:
- mudança de hábitos, como controle de peso e interrupção do tabagismo;
- tratamento clínico de alterações hormonais;
- correção cirúrgica de causas como a varicocele;
- inseminação intrauterina, em alterações leves;
- FIV com ICSI, técnica em que um único espermatozoide é injetado diretamente no óvulo, indicada principalmente em alterações mais importantes do sêmen.
Investigação da fertilidade em Blumenau
A Procriar MRD atua em reprodução assistida há mais de 30 anos e foi pioneira na região. Consultório, centro cirúrgico e laboratório de FIV funcionam no mesmo endereço, no centro de Blumenau (SC). Agende a consulta do casal.
Perguntas frequentes sobre infertilidade masculina
A contagem de espermatozoides está caindo no mundo?
Sim. Uma meta-análise com 223 estudos registrou queda de 51,6% na concentração de espermatozoides entre 1973 e 2018, em homens de todos os continentes. A partir de 2000, a redução passou de 1,16% para 2,64% ao ano.
O que causa a infertilidade masculina?
As causas incluem varicocele, alterações hormonais, infecções, fatores genéticos e tratamentos como a quimioterapia. A queda populacional na qualidade do sêmen está associada a disruptores endócrinos, obesidade, sedentarismo, tabagismo e exposição ao calor.
Como é feito o espermograma?
A amostra de sêmen é coletada por masturbação, em recipiente estéril, após 2 a 7 dias de abstinência sexual. O laboratório analisa volume, concentração, motilidade, vitalidade e morfologia dos espermatozoides.
Qual é a concentração normal de espermatozoides?
Pelo manual da OMS de 2021, o limite inferior de referência é de 16 milhões de espermatozoides por mililitro, com pelo menos 39 milhões no total da amostra.
Espermograma alterado impede a gravidez?
Por si só, não. O resultado indica a necessidade de investigação e ajuda o especialista a definir o tratamento, que pode ir de mudanças de hábitos à FIV com ICSI.
Quando o homem deve fazer o espermograma?
Ao mesmo tempo que a parceira inicia a investigação da fertilidade, geralmente após 12 meses de tentativas, ou 6 meses quando a mulher tem 35 anos ou mais.
Referências
- Levine H, et al. Temporal trends in sperm count: a systematic review and meta-regression analysis of samples collected globally in the 20th and 21st centuries. Human Reproduction Update, 2023. doi.org/10.1093/humupd/dmac035
- Revisão da Universidade de Catânia sobre o declínio global da concentração de espermatozoides. Antioxidants, 2026. doi.org/10.3390/antiox15060778
- Schlegel PN, et al. Diagnosis and treatment of infertility in men: AUA/ASRM guideline part I. Fertility and Sterility, 2021. doi.org/10.1016/j.fertnstert.2020.11.015
- Lin R, et al. Global, regional, and national prevalence and years lived with disability due to infertility, 1990-2021. Chinese Medical Journal, 2025. doi.org/10.1097/CM9.0000000000003838
- Yang C, et al. Epidemiological trends of primary male infertility and secondary male infertility burden in BRICS from 1990 to 2021 and projections to 2035. International Journal of Gynecology & Obstetrics, 2026. doi.org/10.1002/ijgo.71219
- World Health Organization. WHO laboratory manual for the examination and processing of human semen, 6th edition, 2021.

